Alimentação saudável (de verdade)

24.08.21

Alimentação saudável (de verdade)

Artigo

A má ciência, a influência política, a normal ganância das indústrias farmacêutica e de alimentos e a força do agronegócio têm manipulado este conceito

O conceito de alimentação saudável tem variado com o decorrer do tempo, influenciado por temores desencadeados pelo crescimento preocupante das doenças cardiovasculares e seus fatores de risco. A má ciência, a influência política expressa nas diretrizes governamentais, a normal ganância das indústrias farmacêutica e de alimentos, assim como a força do agronegócio, têm manipulado este conceito. O resultado é uma explosão de obesidade, diabetes, câncer e outras doenças crônicas, inclusive as cardiovasculares.

No meu entendimento, alimentação saudável é aquela que vai garantir a qualquer pessoa plenas condições de desenvolvimento e manutenção de seu corpo, além de uma vida sem doenças resultantes da própria alimentação.

Em termos fisiológicos, uma alimentação saudável implica em ingerir os nutrientes essenciais para a vida. Necessitamos de água, de aminoácidos, que estão contidos nas proteínas dos alimentos, de gorduras, nas formas de ácidos graxos ômega seis e ômega três, de vitaminas e de sais minerais.

Na prática, estamos habituados a enxergar os alimentos em termos de macro e micronutrientes. Proteínas, gorduras e carboidratos são os chamados macronutrientes. Vitaminas e sais minerais são os micronutrientes. Esta divisão leva em conta apenas a quantidade relativa dos nutrientes que circulam pelo corpo. Não leva em conta o que é efetivamente essencial. Dos chamados macronutrientes, dois tipos apenas contêm nutrientes essenciais: proteínas e gorduras.

Por outro lado, para entender o que efetivamente nos faz bem, é importante considerar o que somos como espécie, e como evoluímos. O homem é um animal onívoro, ou seja, é capaz de comer tudo o que encontra pela frente, ingerindo alimentos de uma forma oportunista, quando com fome, ou deliberada, buscando satisfazer o que considera indicado, ou necessário ou prazeroso.

Ser capaz de comer de tudo não quer dizer que tudo nos faz bem. Ao contrário, muito do que comemos pode nos fazer mal, e, dependendo da pessoa e da fase de sua vida, muitas intolerâncias surgem ou se evidenciam e distúrbios metabólicos, muitas vezes de forma lenta e imperceptível, derivam da alimentação inadequada.

Como espécie, assim como os outros animais na natureza, o homem está fisiologicamente mais preparado para comer alimentos densos em nutrientes que necessita. Basicamente, carne gorda, de qualquer origem. A carne, principalmente as vísceras animais, assim como os ovos e o leite e seus derivados, contém todos os nutrientes que o corpo humano necessita: aminoácidos, gorduras, vitaminas e sais minerais.

E os vegetais? Também somos capazes de comê-los, como todos sabemos, alguns com mais facilidade, outros menos. A densidade, a presença e a disponibilidade dos nutrientes nos vegetais são menores do que na carne, ovos ou leite e seus derivados. Pergunta-se: é possível alimentar-se somente com vegetais? A resposta é simples: não. Se optarmos por nos alimentar somente com vegetais, necessitaremos suplementar a alimentação com nutrientes essenciais, em maior ou menor grau, dependendo da fase da vida.

Ainda em termos fisiológicos, o corpo humano é plenamente capaz de regular a quantidade de alimentos que ingere, se densos em nutrientes. Por outro lado, como vantagem evolutiva, somos capazes de ingerir alimentos que não são essenciais, mas que podem ser armazenados em nosso corpo na forma de gordura. Esta gordura fica preparada para ser transformada em energia, suprindo as necessidades metabólicas numa provável falta de alimentos.

Os alimentos que transformamos imediatamente em energia ou acumulamos como gordura, e com os quais convivemos desde o início de nossa diferenciação como espécie, são basicamente as frutas, que são ricas em açúcares, também conhecidos como carboidratos.

Também somos capazes de comer folhas, grãos e raízes. Estes dois últimos tipos, desde que cozidos. Estes alimentos contêm alto teor de amido, que é uma forma de açúcar ou carboidrato. Aqui é importante lembrar que, para os carboidratos, os mecanismos de regulação da saciedade funcionam de forma diferente. Somos incentivados pelo nosso corpo a comer até não poder mais. De onde vem esse comportamento? Vem da sazonalidade e pouca disponibilidade das frutas em nosso passado evolutivo. Ou seja, dependendo da estação do ano e de onde vivíamos, nem sempre as frutas estavam disponíveis. Daí o oportunismo em comer a maior quantidade possível. O desenvolvimento dos meios de conservação de alimentos, tais como a desidratação das frutas ao sol, as conservas, as geleias e, para os outros vegetais, o armazenamento dos grãos e o processamento em farinhas, alterando totalmente o quadro da disponibilidade dos alimentos, assim como o surgimento da refrigeração e a evolução dos meios de transporte. Atualmente temos disponíveis alimentos de qualquer tipo, independentemente de local e da estação do ano.

Agora, se comermos de tudo, indistintamente, vamos ficar doentes. O que seria, então uma alimentação realmente saudável? Carne, ovos, leite e derivados, principalmente. Legumes, para acrescentar variedade. Temperos, para realçar ou fornecer sabor. Basicamente, açougue e feira, nada mais.

Água, evidentemente. Podemos ingerir água pura ou com infusões, como café e chás.

Não necessitamos de carboidratos, seja na forma de açúcar ou amido. Também não necessitamos de todos os aditivos aplicados na industrialização dos alimentos: corantes, conservantes, flavorizantes. Qualquer um destes componentes, se consumidos em quantidade, irá nos fazer mal: ou intoxicam, ou engordam.

Concluindo, o que devemos comer? O que hoje chamamos de comida de verdade. Alimentos que vêm direto do campo, produzidos sem agrotóxicos, antibióticos e hormônios. Alimentos minimamente processados, preferencialmente produzidos de forma sustentável e regenerativa. Afinal, devemos pensar em alimentos saudáveis disponíveis para as próximas gerações.

Outras perguntas que podem ser feitas: como comer? Quantas vezes por dia? Em que proporção? A resposta é simples: devemos comer quando temos fome e, na refeição, comer até ficarmos saciados. Aprender a sentir estes apelos do corpo, fome e saciedade, é fundamental na alimentação. Por este motivo é importante que, em cada refeição, os alimentos sejam densos em nutrientes, para que possamos nos sentir saciados.

O que seria recomendável, ou normal? Evidentemente, depende de cada pessoa e da situação. Para alguns, uma refeição por dia é suficiente. Para a maioria, duas refeições, no máximo três. Nada de lanches ou beliscos. Se nos alimentamos bem a cada vez, dificilmente sentiremos fome real em menos de seis horas após uma boa refeição.

Por

Mari Abreu

Nutricionista


Renomada nutricionista em Florianópolis, Mari Abreu é uma profunda conhecedora das estratégias alimentares Paleo e Low Carb. É nutricionista, coordenadora clínica no Checkup Executivo Baía Sul, na capital catarinense, e diretora da Healthy & Safe Place to Work (HSPW).

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